quarta-feira, 23 de junho de 2010

Aplauso para Alberto Guzik

Em teus olhos, Alberto, eu sinto pássaros
que concluem a noção do infinito
e o  azul que espalhas fez um pacto
com o que há de mais belo. É impossível

não amar tua voz que tem formato
de um aperto de mão, de um abraço íntimo.
Tudo, sim, vale a pena, disse o Bardo,
como se escrevesse tendo visto

tua alma de amplos, largos, vastos,
horizontes que cabem num sorriso
que em teu rosto tu deixas desenhado,

como estrela capaz de um céu ou o risco
de uma felicidade. O nosso aplauso
bate igual coração. Sem fim ou início.

sábado, 13 de março de 2010

latinos

Não me lembro qual foi o primeiro autor de língua espanhola que li. Seguramente foi  chileno Neruda. Acho que Cem Sonetos de Amor. Emprestado de Ceminha, meu anjo e minha professora de literatura do CAD, em Campina Grande. 


Ela, ao ser uma das primeiras pessoas a ler meus primeiros escritos, me incentivou, botou pilha. Até uma fita com Neruda declamando ela me deu. Lembro que eu só podia escutar quando não tinha ninguém em casa. É que aquela voz dele, meio que de canto gregoriano, não era muito atrativa pra quem não era do meio. 

"Que diabos é isso é o papa?", alguém disse enquanto eu ouvia, não sem um pouco de embriaguez, a Canção desesperada.

Creio que em seguida devo ter lido colombiano Gabriel Garcia Marquez, Doze Contos Peregrinos.Exemplar pego na biblioteca do curso de Letras. As bibliotecas sempre me salvaram. Mas acho que o primeiro livro mesmo foi Amor nos Tempos do Cólera, lido na biblioteca municipal de Campina Grande, a Félix Araújo. Lia todos os dias um pouco, de lá não podiam sair livros. Lá também eu devo ter lido A Casa Verde, do peruano Mário Vargas Llosa, leitura também não concluida. Quem também ficou pela metade foi Cem Anos de Solidão, de Gabo. Fantasiei tanto o livro que tinha eu outra história quando comecei a ler. É um romance que eu pretendo ler qualquer dia desses.


No curso de Letras, conheci um poeta de mais ou menos minha idade, Talden Farias. Ele era um entusiasta do argentino Jorge Luís Borges. Eu tinha um amigo no curso de comunicação, Alysson. Ele era aprendiz de crítico de cinema, também me falava muito de Borges. Agora que ponho a memória para funcionar e recordar estas primeiras páginas, a lembrança me vem com o ambiente acalorado das tardes que eu passava na biblioteca do curso de letras da UFCG. Ali tomei contato com "Ruinas Circulares", "Biblioteca de Babel", "Livro de Areia". Creio que um dos volumes da obra completa de Borges, que até hoje eu tenho aqui em casa, o adquiri nesta época. 

Borges, o ensaísta, também era matéria da cadeira de Teoria da Literatura I, que quase fui reprovado. Não me dava bem com a professora. Melhor não dar detalhes. Algumas das lições de Sete Noites ainda hoje me marcam e eu as cito sempre. Borges foi, sim, um grande acontecimento.

Desse tempo eu li ainda o belga/argentino Cortázar. Precisamente, contos de O Bestiário. Não tive coragem de me aventurar pelos esquemismos matemáticos de Jogo de Amarelinha, mas sempre me comovo quando recordo a leitura de A Casa Tomada, um de meus contos preferidos.



Quando comecei mesmo a me dedicar à poesia, era só este o gênero de minhas leituras. Dei um tempo na prosa, no ensaio - não os deixei de ler, só que não eram minha prioridade. Só coisa de uns três, quatro anos é que priorizei a ficção.


Há uma linha espiritual. O espanhol Cervantes é pai de Borges. Creio que da mesma forma que o chileno/ mexicano Roberto Bolaño é descendente do cego argentino e neto do autor de Dom Quixote.


Bolaño foi outro acontecimento. Esquisito, apesar de já ter ouvido muito falar dele, em críticas, reportagens, sempre me retraia a começar a ler algo dele. Ironia das ironias, o primeiro texto dele que li foi um capítulo, em inglês, de seu romance 2666. Lembro de ter saído no dia seguinte como um louco para a Siciliano do Manaíra disposto a comprar qualquer coisa que tivesse o seu nome. Putas Assassinas foi o meu primeiro. Não poderia ter sido melhor a escolha.

Melhor não falar mais de meu entusiasmo por Bolaño, mas dizer que ele me impulsionou a conhecer outros autores da América Latina. Lembro que indo a Video Store por curiosidade comecei a folhear um livro de bolso da L&PM, Cavalos do Amanhecer. Raro eu comprar um livro sem saber quem é o autor, sem ter lido sobre a obra antes. Dizia apenas que o autor era uruguaio. "Nunca li nada de lá", pensei. Decidi apostar. Não me arrependi. É um volume, embora curto, fabuloso. Pensa que o autor, Mário Arregui, não tenha tantos contos bons quanto os desta antologia - sou forçado a concordar com o tradutor, Sérgio Faraco, que me concedeu uma entrevista mês passado em função dos 25 anos de morte de Arregui. Li dele A Cidade Silenciosa é há muita irregularidade.


Outro escritor de quem muito se falava era o argentino Ricardo Piglia. Comprei dois volumes. Respiração Articifial e Prisão Perpétua, li este último. Alguns contos não me saem da cabeça. Lembro da felicidade com que li o primeiro conto, sobre um pugilista decadente segurando o recorte velho de um jornal que registrava seu único instante de glória. E o final e o início de um conto sobre um assassinato que é desvendado por um jornalista.


Antes de comprar os de Piglia e de Arregui, lembro agora, comprei A História  do Pranto, livro curto do argentino Alan Pauls - não li todo, fiquei em mais da metade. É um romance de um estilo muito, como dizer, entranhado, não acho que deva ser lido por partes e sim arrematado de uma só vez.


Outro argentino que li com prazer foi Ernesto Sábato. Comprei três livros dele, só li um até agora, O Túnel. Aguardo como sobremesa em geladeira reencontrar seu estilo, ler suas paisagens, encontrar com seus personagens.


Um grande arrebatamento foi ter lido o mexicano Juan Rulfo. Pedro Páramo é uma grande obra prima. É um daqueles livros que causam abalos sísmicos. Que movem as estrelas do lugar. Que dão vontade de fazer alguma coisa, de escrever, de tomar um porre. De dar um grito.


Sem o mesmo fervor, mas com algum encanto, sobretudo pela forma como a narrativa  se impões "você entra no bar, encontra....", lembrando aquela poesia de Hiroshima mon amour, li também Aurora, novela curta do mexicano Carlos Fuentes.



Americanos

Sempre tive um problema com eles. Com os americanos.
Usava, em príncipio, a desculpa de que era melhor lê-los no original. 
Como não tinha a menor intenção de aprender inglês, idioma que em meus tempos de esquerdista
burro era ' a língua do inimigo', a literatura anglo-saxã era uma lacuna.
Nunca fui aquele alienado que considerava os Estados Unidos o paraíso na terra. 
Nem quanto era entorpecido pelas Sessões da Tarde.
Sempre fui muito apegado às tradições nordestinas e tal.
Se não considerava a terra de Tio Sam uma filial do céu, não tive resistências para
acreditar que lá funcionava a sede do inferno, quando a turma da esquerda
começou a me enviesar.

"O povo americano, os grandes artistas americanos,  não têm nada a ver com George Bush.
Nem todo cinema americano é Hollywood. O cinema que se faz em Nova Iorque é completamente diferente do que se faz no resto do país".

Foi o que disse Braulio Tavares numa palestra na Nova Consciência de não sei quantos anos atrás.

Não lembro ao certo quais foram os autores americanos 
que eu comecei a ler. Talvez Philip Roth, numa sugestão muito acertada do meu amigo Alberto Guzik - "leia; você vai gostar dele".
A falta de piedade consigo. A forma como sua escrita nos devassa a alma. Acho que isso me pegou. Me pegou de jeito. Me fez não só comprar muitos de seus livros como acompanhar os lançamentos.





Depois, Cormac McCarthy. Esse eu li por indicação de Daniel Galera. 
Não esqueço do entusiasmo com que ele falou desse autor da vez que conversamos na Bienal de Recife. Ficamos em grupo ele, Ana Paula Maia, que já era minha amiga e eu.Comprei e li o Onde os Velhos Não Tem Vez e depois Todos os Belos Cavalos. Uma escrita fraturada. Diálogos que me lembram muito a carpintaria teatral. As falas parecem incorporar rubricas. Não é à toa nem gratuito isso. McCarthy é autor de peças. 



Quando John Updike morreu comprei um livro dele, Coelho Corre. Uma edição modesta. Vagabunda até. Queria comprar a tradução do Paulo Henriques Brito, de quem já conhecia seu trabalho com os livros de Roth, pela Cia das Letras. Não li o livro todo. Mas a cena de abertura, com o protagonista jogando basquete com os moleques é magistral. É um livro que devo retomar a leitura. Em breve.

Toni Morrison (Jazz) foi outro livro que abandonei depois de dezenas de páginas - eu sou uma verdadeira CPI de obras inacabadas.

Quando escrevi para o jornal o obituário de Sallinger fiquei com vontade de ler o seu livro de contos. Se gostasse iria adiante com o Apanhador
 
Mas e os clássicos? Melville e seu magistral Moby Dick é um livro que também iniciei a leitura, uma das mais prazerosas, devo dizer, e a interrompi. Já com Faulker não tive a mesma sorte. Ganhei o Enquanto Agonizo não me pegou de jeito. Apesar de a cena inicial do filho preparando o caixão da mãe ser muito forte. Talvez pela narração em primeira pessoa de cada personagem, não sei. Na verdade, eu queria ter lido, inicialmente, Som e Fúria e não este livro. 

Da minha coleção da Abril Cultural não conclui nem a leitura de Fitzgerald (Suave é a Noite), nem a de Steinbeck (As Vinhas da Ira), nem a de Hemingway (O Sol Também se Levanta) - talvez não tenha me dado com a tradução, não sei. 

sexta-feira, 12 de março de 2010

da compulsão...

Adoro citar Borges. Acho que na minha estatística de citação só perde para a Bíblia.
Borges dizia que não havia coisa mais triste do que chegar a uma livraria, encontrar um livro cujo assunto é por demais cativante (por exemplo, uma coletânea da poesia céltica medieval) e ser impedido de comprá-lo pelo simples fato de já tê-lo em casa.
Livros se reproduzem com muita facilidade.
Aqui, onde os guardo, falta estante, falta lugar. Preciso arrumar essa bagunça.
Mais três títulos vieram se somar a essa atabalhoada biblioteca.
Tudo edição de bolso. Tudo comprado lá em Manassés.
Por que os comprei? Vamo lá.

1- Edgar Allan Poe - A Carta Roubada - e outras histórias de crime e mistério (L& PM Pocket).

Não li muito Poe. Acho que um ou outro conto no meu tempo do curso de letras, na sala abafada do Laell naquelas tardes de sol e aperreio. Talvez o poema do "Never More", em várias traduções, inclusive uma de Machado de Assis. Até fiquei naquela: levo ou não levo. De relance, encontro o nome na contracapa: "William Wilson" - personagem que inspirou minha amiga Ana Paula Maia na composição do seu indefectível "Edgar Wilson" (se eu fosse diretor de cinema, escalaria Maria Bortolotto - se interpretando - no papel. Mataria a pau). Foi a senha.
                                               
Nunca li nada do cara. Só sabia dele de oitiva. Aquilo que um amigo meu me dizia. E, ultimamente, muito do que o Mário Bortolotto escreve, cita, fala. E até do fato de o acusarem de ser um personagem bem parecido com o velho Buck que, aliás se eu não tiver enganado, Bortolotto já chegou a interpretá-lo em um monólogo. Foi o primeiro a ser lido dos três livros que comprei. No ônibus, li o primeiro conto. Gostei do ritmo. Gostei da levada e dos ambientes embora, reconheça, surtiria mais efeito se eu os tivesse lido há mais tempo e mais jovem. Mesmo assim, há uma respiração, uma agilidade que me interessam no que ele escreve.



Devido ao espetáculo do Alfenim, Milagre Brasileiro, que costura a Antígona grega, com sua releitura feita por Brecht, fiquei curioso em ler essa tradução de Donald Schüller, outro nominho muito popular dos meus tempos de cursos de letras. Até porque já está na hora de eu organizar a parte da minha estante que se refere à dramaturgia clássica grega - está cheia de buracos.


por que 'ver' os clássicos

Acho que já estava na hora de alguém, não eu, evidentemente, escrever um livro, calcado na obra de Calvino, mas em vez de ser sobre literatura, sobre cinema, com o seguinte título:
Por que ver os clássicos?
Meti-me numa empreitada. Conhecer musicais. É um gênero que, imaginava eu, tinha tudo pra me seduzir. E acertei. Já vi dois. Cantando na Chuva (Stanley Donen/ Gene Kelly, 1952). Filme do qual eu só conhecia a cena arquetípica, com Gene Kelly ensopado e com seu guarda chuva.
O que me impressionou foi o recurso da metalinguagem - da história dentro da história.Como os atores embarcaram nessa de variar registros de interpretação. Além de uma série de números memoráveis. A cena em que a estrela do cinema mudo é dublada por uma atriz por trás das cortinas é de um requinte que me impressinou. Creio que Almodóvar, em seu Abraços Partidos, faz uma citação a Cantando na Chuva, precisamente nesta cena.







quinta-feira, 11 de março de 2010

Irmãos Karamázov

Chegou hoje a caixa com os dois volumes de Os Irmãos Karamázov.
Da tradução direta do russo, claro. Esperei o momento certo pra comprar.
Paguei R$ 66 (frete incluso) por um livro novinho no Estante Virtual.
Nas livrarias, a média é R$ 89.
Já foram embora 80 páginas, só hoje. É mais ou menos até onde eu cheguei, na primeira tentativa de ler o livro, eu tenho o volume da coleção clássicos da Abril - a velha. Tradução dura, ritmo pesadão. Não entendo russo, não vou dar pitacos sobre, mas, ao contrário do texto vertido em segunda mão do francês, a leitura da tradução feita do original é direta: rápida. Prazerosa.
Borges dizia que não concebia uma leitura que não fosse por esse princípio,
o do prazer. Que o  livro que não seduzisse não merecia ser lido.

***
Irmãos Karamázov é daqueles livros que eu sabia desde sempre que eu gostaria de ler. Se eu mantiver o ritmo de 100 páginas por dia, uma semana e pouco eu derrubo os dois volumes.
Ok, aproveitar as férias para concluir a leitura de dois romances que me deram imenso prazer ao iniciar as primeiras páginas: O Vermelho e o Negro, do Sthendhal e Moby Dick, do Melville.
***

de volta...

Eu tenho uma mania.
A de abandonar coisas. Mania louca. Blog então, nem se fala.
O que me comoveu foi que, nesse terreno baldio que se tornou
essa bagaça aqui, surgiram alguns comentários.
Acho que uma moça sugere um curso
com os clássicos da Abril.
Agradeço a lembrança dela, mas
eu não me sinto muito à vontade para essa modalidade
não. Talvez um dia me sinta. Além do que nem li
todos os clássicos da coleção. Mas, grato pela lembrança.
O que me comoveu também foi ver que há, sem
que eu fizesse propagando nenhuma,
11 seguidores. E pense numa coisa difícil é me seguir -
estou sempre mudando de endereço.
Bueno. É isso.