"Que diabos é isso é o papa?", alguém disse enquanto eu ouvia, não sem um pouco de embriaguez, a Canção desesperada.

Creio que em seguida devo ter lido colombiano Gabriel Garcia Marquez,
Doze Contos Peregrinos.Exemplar pego na biblioteca do curso de Letras. As bibliotecas sempre me salvaram. Mas acho que o primeiro livro mesmo foi
Amor nos Tempos do Cólera, lido na biblioteca municipal de Campina Grande, a Félix Araújo. Lia todos os dias um pouco, de lá não podiam sair livros. Lá também eu devo ter lido
A Casa Verde, do peruano Mário Vargas Llosa, leitura também não concluida. Quem também ficou pela metade foi
Cem Anos de Solidão, de Gabo. Fantasiei tanto o livro que tinha eu outra história quando comecei a ler. É um romance que eu pretendo ler qualquer dia desses.

No curso de Letras, conheci um poeta de mais ou menos minha idade, Talden Farias. Ele era um entusiasta do argentino Jorge Luís Borges. Eu tinha um amigo no curso de comunicação, Alysson. Ele era aprendiz de crítico de cinema, também me falava muito de Borges. Agora que ponho a memória para funcionar e recordar estas primeiras páginas, a lembrança me vem com o ambiente acalorado das tardes que eu passava na biblioteca do curso de letras da UFCG. Ali tomei contato com "Ruinas Circulares", "Biblioteca de Babel", "Livro de Areia". Creio que um dos volumes da obra completa de Borges, que até hoje eu tenho aqui em casa, o adquiri nesta época.
Borges, o ensaísta, também era matéria da cadeira de Teoria da Literatura I, que quase fui reprovado. Não me dava bem com a professora. Melhor não dar detalhes. Algumas das lições de
Sete Noites ainda hoje me marcam e eu as cito sempre. Borges foi, sim, um grande acontecimento.

Desse tempo eu li ainda o belga/argentino Cortázar. Precisamente, contos de
O Bestiário. Não tive coragem de me aventurar pelos esquemismos matemáticos de
Jogo de Amarelinha, mas sempre me comovo quando recordo a leitura de
A Casa Tomada, um de meus contos preferidos.
Quando comecei mesmo a me dedicar à poesia, era só este o gênero de minhas leituras. Dei um tempo na prosa, no ensaio - não os deixei de ler, só que não eram minha prioridade. Só coisa de uns três, quatro anos é que priorizei a ficção.
Há uma linha espiritual. O espanhol Cervantes é pai de Borges. Creio que da mesma forma que o chileno/ mexicano Roberto Bolaño é descendente do cego argentino e neto do autor de Dom Quixote.
Bolaño foi outro acontecimento. Esquisito, apesar de já ter ouvido muito falar dele, em críticas, reportagens, sempre me retraia a começar a ler algo dele. Ironia das ironias, o primeiro texto dele que li foi um capítulo, em inglês, de seu romance
2666. Lembro de ter saído no dia seguinte como um louco para a Siciliano do Manaíra disposto a comprar qualquer coisa que tivesse o seu nome.
Putas Assassinas foi o meu primeiro. Não poderia ter sido melhor a escolha.

Melhor não falar mais de meu entusiasmo por Bolaño, mas dizer que ele me impulsionou a conhecer outros autores da América Latina. Lembro que indo a Video Store por curiosidade comecei a folhear um livro de bolso da L&PM,
Cavalos do Amanhecer. Raro eu comprar um livro sem saber quem é o autor, sem ter lido sobre a obra antes. Dizia apenas que o autor era uruguaio. "Nunca li nada de lá", pensei. Decidi apostar. Não me arrependi. É um volume, embora curto, fabuloso. Pensa que o autor, Mário Arregui, não tenha tantos contos bons quanto os desta antologia - sou forçado a concordar com o tradutor, Sérgio Faraco, que me concedeu uma entrevista mês passado em função dos 25 anos de morte de Arregui. Li dele
A Cidade Silenciosa é há muita irregularidade.

Outro escritor de quem muito se falava era o argentino Ricardo Piglia. Comprei dois volumes.
Respiração Articifial e
Prisão Perpétua, li este último. Alguns contos não me saem da cabeça. Lembro da felicidade com que li o primeiro conto, sobre um pugilista decadente segurando o recorte velho de um jornal que registrava seu único instante de glória. E o final e o início de um conto sobre um assassinato que é desvendado por um jornalista.
Antes de comprar os de Piglia e de Arregui, lembro agora, comprei
A História do Pranto, livro curto do argentino Alan Pauls - não li todo, fiquei em mais da metade. É um romance de um estilo muito, como dizer, entranhado, não acho que deva ser lido por partes e sim arrematado de uma só vez.
Outro argentino que li com prazer foi Ernesto Sábato. Comprei três livros dele, só li um até agora,
O Túnel. Aguardo como sobremesa em geladeira reencontrar seu estilo, ler suas paisagens, encontrar com seus personagens.
Um grande arrebatamento foi ter lido o mexicano Juan Rulfo.
Pedro Páramo é uma grande obra prima. É um daqueles livros que causam abalos sísmicos. Que movem as estrelas do lugar. Que dão vontade de fazer alguma coisa, de escrever, de tomar um porre. De dar um grito.
Sem o mesmo fervor, mas com algum encanto, sobretudo pela forma como a narrativa se impões "você entra no bar, encontra....", lembrando aquela poesia de
Hiroshima mon amour, li também
Aurora, novela curta do mexicano Carlos Fuentes.